No século XX, enquanto a
psicanálise de Freud ou o Behaviorismo de Watson tendiam a ter uma visão muito
pessimista da natureza humana, a aproximação de Rogers era positiva e focada em
ajudar as pessoas chegarem a seus ápices de completude. Carl Rogers nasceu em
1902 na cidade de Oak Park em Illinois. No início de sua carreira, estudou na
universidade: Agricultura, Historia e Religião ate que largou essa ultima para
estudar psicologia clinica na “Columbia University”. A partir dai se tornou
Presidente da Associação Americana de Psicologia em 1947, escreveu dezenove
livros, diversos artigos e em 1987 foi indicado ao Premio Nobel da Paz, também
sendo o ano em que morreu deixando de legado sua imensa contribuição para a
Psicologia Humanista.
Antes de entrar em detalhes nas
experiências narradas no texto é essencial discorrer sobre os assuntos tratados
no capítulo três: a teoria humanista e sua abordagem centrada na pessoa.
Inicialmente precisamos entender o que tange a tendência a realização e a
tendência formativa, essas duas “constituem a pedra fundamental” da abordagem.
“O organismo, em seu estado normal, busca a sua própria realização, a
auto-regulação e a independência do controle externo”. Essa frase sintetiza
muito bem do que se trata a tendência a realização, que ocorre em qualquer
nível de um organismo vivo, não importando o ambiente nem mesmo se o estímulo
seja interno ou externo, pois, sob essa perspectiva a vida é um processo ativo
e não passivo. Tal processo não implica em “criar no individuo algo que ainda
não estava lá”, o que importa pode ser observado na nutrição de condições que
contribuam para o crescimento direcional. Para o terapeuta propiciar esse
ambiente são necessários três elementos principais: a autenticidade ou
congruência, a “aceitação incondicional” e a compreensão empática. Com esse
clima as pessoas se tornam capazes de usar ao máximo seus recursos de
auto-compreensão e de modificação de conceitos, tão logo refletindo no próprio
crescimento do sujeito. A tendência formativa se caracteriza por ser uma
concepção mais ampla: qualquer partícula passa de estruturas mais simples para
as mais complexas. Nos, da inconsciência para o chamado awareness. Temos
consciência do que acontece a nossa volta. Ou seja, todas as partes do universo
estão em sintonia entre si numa espécie de “Ballet Cósmico”. Expressão que pode
ser magnificamente sentida na combinação do poema sinfônico de Strauss “Also
sprach Zarathustra” com a cena introdutória de “2001 uma odisseia no espaço”.
Ou no momento deste mesmo filme quando estamos flutuando no cosmos infinito ao
som da -waltz- “An der schönen blauen donau”, o belíssimo hino austríaco não
oficial. Vale ressaltar a genialidade de Stanley Kubrick na montagem deste
clássico.
O restante dos capítulos narram
sobre experiências em grupo e pessoais de Rogers, assim como cartas de pessoas
que foram impactadas por ele. Nos relatos encontramos aplicações do Humanismo
em diferentes contextos, Carl sempre comenta argumentando habilmente de modo a
validar as características que considera pertencerem a “pessoa do futuro”. Sua
escrita é bem simples no bom sentido, é fácil de ler e passa a sensação de
estar numa conversa íntima com algum amigo. Mas sempre me encontrava em grande
dicotomia, pois, me identificava muito com o que dizia sobre buscarmos
autenticidade, abertura para o mundo e desejo de inteireza ao
mesmo tempo em que achava piegas, inaplicável, e
incoerente com a natureza humana e seu contexto socioeconômico. É difícil
criticar o texto por que sua ideologia de vida proposta é tão bonita e a
promessa da utopia humanista parece que salvaria a nos todos. Porem em algumas
pesquisas me deparei com ideias que junto às minhas provam o contrário. Primeiramente:
“…what real individuals, living in what real societies, workingatwhat real jobs, and earning what real income have any chance at all of becoming selfactualizers?” (Lethbridge, 1986, p. 90). Certamente não Herman, guarda de
segurança que trabalhou na portaria de um dos Workshops
realizados por Carl. Que, ao
perguntar sobre quando seria realizado um próximo encontro foi respondido com
um “Não sei, talvez no próximo outono”. Muito formidável que os funcionários do
evento sentiram toda a “vibração positiva” que o workshop causa, mas quantos
deles mudaram de vida por causa disso? Ora, quando terão tempo para refletir
sobre si mesmos, lerem livros sobre a Psicologia humanista e se preocuparem em
tornar pessoas autenticas diante de um mundo com tanta ignorância e obrigações
impostas pelo modo de vida capitalista? A realidade da maioria das pessoas é
esta e alguns relatos sobre como Carl ajudou empresários, estudantes e
trabalhadores da classe media não me convencem de que tal comportamento
realmente seria uma semente para uma mudança positiva que no futuro entrelaçará
todos nos.
Em segundo lugar, uma análise
derivada das perspectivas de Michel Foucault: Independente do individuo
humanista ser pelo menos potencialmente capaz de se fazer uma pessoa melhor, de
conceber as mais altas possibilidades de uma natureza humana intrínseca, de
escolher os mais nobres valores humanos, um pós-modernista como
Foucault nega
qualquer fundação, universal ou pressuposta normativamente sobre nossa natureza
e rejeita qualquer noção de “Self” ou de
“Self-Actualization”. Ele também vê esse individuo humanista como uma
mera consequência das práticas de poder – contrariando
a visão de Carl de um individuo autônomo com uma natureza intrínseca (a
tendência à realização). Para os pós-modernistas, a crença nesse tipo de
natureza apenas reflete como as pessoas têm sido “enculturated” a pensar nelas mesmas como certos tipos de pessoas. (Pearson,
Elaine and Podeschi, Ronald (1997). “Humanism and individualism: Maslow and his critics.,”).
Enfim, o
livro é uma excelente leitura e apesar das críticas, em diversos momentos
percebi-me aplicando no meu dia-a-dia aquelas características do “ser humano
futurista” de Rogers. Nestes momentos posso dizer que me sentia aliviado e
feliz quando agia de maneira autentica, sem tentar criar uma fortaleza entre
mim e os outros e revelando o que sentia emocionalmente em situações difíceis.
Carl é um romântico sonhador e precisamos de mais pessoas assim nesta época
obscura que estamos vivendo, onde direitos humanos básicos estão sendo feridos
e claramente estamos retrocedendo, não só no Brasil percebido na figura do
nosso presidente, mas também nos EUA e ate na Europa. Neste ultimo, partidos de
extrema-direita estão ganhando tamanho em países inconcebíveis como a Alemanha.
Ademais veja 2001 e aprecie toda a grandiosidade atemporal de um “Ballet
Cósmico” visual e sonoro.
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