sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Resenha: “Um jeito de ser” – Carl R.Rogers; 1980



    No século XX, enquanto a psicanálise de Freud ou o Behaviorismo de Watson tendiam a ter uma visão muito pessimista da natureza humana, a aproximação de Rogers era positiva e focada em ajudar as pessoas chegarem a seus ápices de completude. Carl Rogers nasceu em 1902 na cidade de Oak Park em Illinois. No início de sua carreira, estudou na universidade: Agricultura, Historia e Religião ate que largou essa ultima para estudar psicologia clinica na “Columbia University”. A partir dai se tornou Presidente da Associação Americana de Psicologia em 1947, escreveu dezenove livros, diversos artigos e em 1987 foi indicado ao Premio Nobel da Paz, também sendo o ano em que morreu deixando de legado sua imensa contribuição para a Psicologia Humanista.
    Antes de entrar em detalhes nas experiências narradas no texto é essencial discorrer sobre os assuntos tratados no capítulo três: a teoria humanista e sua abordagem centrada na pessoa. Inicialmente precisamos entender o que tange a tendência a realização e a tendência formativa, essas duas “constituem a pedra fundamental” da abordagem. “O organismo, em seu estado normal, busca a sua própria realização, a auto-regulação e a independência do controle externo”. Essa frase sintetiza muito bem do que se trata a tendência a realização, que ocorre em qualquer nível de um organismo vivo, não importando o ambiente nem mesmo se o estímulo seja interno ou externo, pois, sob essa perspectiva a vida é um processo ativo e não passivo. Tal processo não implica em “criar no individuo algo que ainda não estava lá”, o que importa pode ser observado na nutrição de condições que contribuam para o crescimento direcional. Para o terapeuta propiciar esse ambiente são necessários três elementos principais: a autenticidade ou congruência, a “aceitação incondicional” e a compreensão empática. Com esse clima as pessoas se tornam capazes de usar ao máximo seus recursos de auto-compreensão e de modificação de conceitos, tão logo refletindo no próprio crescimento do sujeito. A tendência formativa se caracteriza por ser uma concepção mais ampla: qualquer partícula passa de estruturas mais simples para as mais complexas. Nos, da inconsciência para o chamado awareness. Temos consciência do que acontece a nossa volta. Ou seja, todas as partes do universo estão em sintonia entre si numa espécie de “Ballet Cósmico”. Expressão que pode ser magnificamente sentida na combinação do poema sinfônico de Strauss “Also sprach Zarathustra” com a cena introdutória de “2001 uma odisseia no espaço”. Ou no momento deste mesmo filme quando estamos flutuando no cosmos infinito ao som da -waltz- “An der schönen blauen donau”, o belíssimo hino austríaco não oficial. Vale ressaltar a genialidade de Stanley Kubrick na montagem deste clássico.
    O restante dos capítulos narram sobre experiências em grupo e pessoais de Rogers, assim como cartas de pessoas que foram impactadas por ele. Nos relatos encontramos aplicações do Humanismo em diferentes contextos, Carl sempre comenta argumentando habilmente de modo a validar as características que considera pertencerem a “pessoa do futuro”. Sua escrita é bem simples no bom sentido, é fácil de ler e passa a sensação de estar numa conversa íntima com algum amigo. Mas sempre me encontrava em grande dicotomia, pois, me identificava muito com o que dizia sobre buscarmos autenticidade, abertura para o mundo e desejo de inteireza ao mesmo tempo em que achava piegas, inaplicável, e incoerente com a natureza humana e seu contexto socioeconômico. É difícil criticar o texto por que sua ideologia de vida proposta é tão bonita e a promessa da utopia humanista parece que salvaria a nos todos. Porem em algumas pesquisas me deparei com ideias que junto às minhas provam o contrário. Primeiramente: “…what real individuals, living in what real societies, workingatwhat real jobs, and earning what real income have any chance at all of becoming selfactualizers?” (Lethbridge, 1986, p. 90). Certamente não Herman, guarda de segurança que trabalhou na portaria de um dos Workshops
realizados por Carl. Que, ao perguntar sobre quando seria realizado um próximo encontro foi respondido com um “Não sei, talvez no próximo outono”. Muito formidável que os funcionários do evento sentiram toda a “vibração positiva” que o workshop causa, mas quantos deles mudaram de vida por causa disso? Ora, quando terão tempo para refletir sobre si mesmos, lerem livros sobre a Psicologia humanista e se preocuparem em tornar pessoas autenticas diante de um mundo com tanta ignorância e obrigações impostas pelo modo de vida capitalista? A realidade da maioria das pessoas é esta e alguns relatos sobre como Carl ajudou empresários, estudantes e trabalhadores da classe media não me convencem de que tal comportamento realmente seria uma semente para uma mudança positiva que no futuro entrelaçará todos nos.
    Em segundo lugar, uma análise derivada das perspectivas de Michel Foucault: Independente do individuo humanista ser pelo menos potencialmente capaz de se fazer uma pessoa melhor, de conceber as mais altas possibilidades de uma natureza humana intrínseca, de escolher os mais nobres valores humanos, um pós-modernista como
Foucault nega qualquer fundação, universal ou pressuposta normativamente sobre nossa natureza e rejeita qualquer noção de “Self” ou de “Self-Actualization”. Ele também vê esse individuo humanista como uma mera consequência das práticas de poder contrariando a visão de Carl de um individuo autônomo com uma natureza intrínseca (a tendência à realização). Para os pós-modernistas, a crença nesse tipo de natureza apenas reflete como as pessoas têm sido “enculturated” a pensar nelas mesmas como certos tipos de pessoas. (Pearson, Elaine and Podeschi, Ronald (1997). “Humanism and individualism: Maslow and his critics.,”).
    Enfim, o livro é uma excelente leitura e apesar das críticas, em diversos momentos percebi-me aplicando no meu dia-a-dia aquelas características do “ser humano futurista” de Rogers. Nestes momentos posso dizer que me sentia aliviado e feliz quando agia de maneira autentica, sem tentar criar uma fortaleza entre mim e os outros e revelando o que sentia emocionalmente em situações difíceis. Carl é um romântico sonhador e precisamos de mais pessoas assim nesta época obscura que estamos vivendo, onde direitos humanos básicos estão sendo feridos e claramente estamos retrocedendo, não só no Brasil percebido na figura do nosso presidente, mas também nos EUA e ate na Europa. Neste ultimo, partidos de extrema-direita estão ganhando tamanho em países inconcebíveis como a Alemanha. Ademais veja 2001 e aprecie toda a grandiosidade atemporal de um “Ballet Cósmico” visual e sonoro.

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